domingo, 26 de agosto de 2007

O ARQUITETO DA POESIA

O arquiteto da poesia
João Cabral de Melo Neto
Reedição da obra do poeta comprova a vitalidade da sua poesia calculada
Ubiratan Brasil, do Estadão

SÃO PAULO - Em uma de suas poesias, O Que se Diz ao Editor a Propósito de Poemas, João Cabral de Melo Neto reclamava que seus livros tinham de ser logo publicados, ato que os tornavam embalsamados. "E preciso logo embalsamá-lo: / enquanto ele me conviva, vivo, / está sujeito a cortes, enxertos: / terminará amputado do fígado, / terminará ganhando outro pâncreas; / e se o pulmão não pode outro estilo / (esta dicção de tosse e gagueira), / me esgota, vivo em mim, livro-umbigo." A fama de recluso, portanto, não refletia na obra - em vários de seus versos, João Cabral, um poeta da mesma grandeza de Pessoa e Drummond, fazia confissões com idêntica emoção, mais aguda e afiada, como um grito quase petrificado.
É o que se pode observar no livro O Cão sem Plumas, que chega nesta segunda-feira, 27, às livrarias ao lado da coletânea inédita O Artista Inconfessável, iniciando a valiosa reedição da obra de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), agora sob a chancela da Alfaguara. "E é por isso que decidimos criar aquele volume, que não existe de fato na sua bibliografia", explica Inez Cabral, filha do poeta. "Ali, ao longo de uma seleção de poemas cuidadosamente escolhidos, todos com traços biográficos, queremos mostrar que João Cabral nunca foi totalmente cerebral, anêmico."
Morte e Vida Severina
De fato, com a poesia novamente à disposição (o próximo volume deverá trazer o clássico Morte e Vida Severina), será possível perceber a ruptura radical na linguagem da poesia brasileira provocada por João Cabral. Antes dele, os versos nacionais viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa. A partir de Pedra do Sono, de 1942, mas especialmente com a publicação de O Cão sem Plumas (1950), o poeta revela uma escrita marcada pelo estilo seco, cortante, uma visão materialista da escrita, além de seu desprezo ao enfeite e à beleza fácil.
A leitura sempre surpreendente de seus poemas logo convence que João Cabral era um arquiteto da poesia - cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema. Com isso, despertou a atenção dos concretistas que, para se legitimarem, elegeram-no seu precursor.
Havia, realmente, alguma semelhança. Em sua poesia, João Cabral oferecia uma visão objetiva, expressa principalmente nos versos sem retoques que retratam a triste realidade nordestina e que tem um ponto alto em Morte e Vida Severina. "Mas, ao contrário da aparente impessoalidade, sua poesia revela um poder muito mais agudo e uma emoção ainda mais essencial, que infelizmente poucos hoje conseguem detectar", comenta a editora Isa Pessoa, coordenadora da reedição e que convidou Antonio Carlos Secchin para estabelecer o texto e cuidar da bibliografia.
Descobrir o poeta
A proposta, portanto, é justamente promover o descobrimento de João Cabral. E isso acontece com O Cão sem Plumas, seu primeiro poema de grande fôlego, um dos marcos definitivos da poesia brasileira e um divisor de águas na poética de João Cabral. "De 1942 a 1947, ele realizou a proeza notável de construir uma identidade autoral forte e renovadora a princípio, que foi se tornando verdadeiramente revolucionária a cada nova publicação", escreve Armando Freitas Filho, na introdução da nova edição de O Cão sem Plumas, lembrando ser esse o livro que dá a partida dessa "revolução sorrateira feita fora do Brasil, no ‘exílio’ diplomático, à margem das editoras, em edições do autor, hoje verdadeiras raridades bibliográficas".
João Cabral viveu 35 anos fora do Brasil como diplomata, até se aposentar como embaixador. Serviu na Espanha, na França, na Inglaterra, na Suíça, no Equador, em Honduras e em Portugal. Mas suas aldeias sempre foram Recife e Sevilha. "Parecia um homem fechado, circunspecto, de fachada intransponível, mas não era", relembra Inez Cabral. "Minha guerra santa atual é mostrar que meu pai não era uma pessoa difícil."
Foi por isso que ela decidiu propor a organização dos poemas intimistas de O Artista Inconfessável. Inez pretendia realizar um documentário, pois acreditava ser o meio mais eficaz para divulgar a obra do pai entre os jovens leitores. "Não me interessa falar aos acadêmicos, que construíram uma idéia até certo ponto errada de sua obra - pretendo chegar aos adolescentes que, quando descobrem sua poesia, descobrem também que João Cabral é pop."
Documentário
A idéia ecoou positivamente na Alfaguara que, para divulgar o relançamento da obra, vai exibir um documentário em algumas livrarias - em setembro, a Cultura será uma das escolhidas. "Percebemos que o leitor gosta de estar próximo do autor, daí a importância das sessões de autógrafo", conta Isa Pessoa. "Como o poeta não está mais vivo, decidimos exibir um filme com uma série de depoimentos de artistas cuja obra incorporou a poesia do João Cabral."
Chico Buarque de Holanda participa de um dos momentos mais tocantes. Ele se lembra que João Cabral era ostensivamente antimusical e reagiu mal quando pediram autorização para musicar Morte e Vida Severina. "Depois de acompanhar o resultado final, meu pai se tornou o maior fã do Chico, empolgadíssimo com o trabalho que ele realizou", lembra Inez.
Chico Buarque também contraria a lenda de que a poesia cabralina seria seca ao confessar que ainda vai às lágrimas quando relê algum de seus poemas. Sobre o mesmo tema, aliás, a cantora e compositora Adriana Calcanhotto é precisa no comentário: "João podia não chorar, mas sua poesia sempre nos emociona."
Assim, continua poderoso o rastro deixado por João Cabral, que pretendia "levar poesia à porta do homem moderno".

Nenhum comentário: